A Religião nas Séries Americanas

Leo G. Carroll e Gene Kelly em O Bom Pastor (Foto: ABC/Divulgação/Arquivo)

Hoje, domingo de Páscoa, o mundo cristão celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Tradicionalmente, a TV costuma programar para esta época (bem como no período natalino) a exibição de filmes e documentários bíblicos. Nas séries de TV, não é comum a produção de episódios sobre a Páscoa, ao contrário do que é feito em relação ao Natal. Mas ao longo dos anos foram produzidas diversas séries e minisséries que tratam das questões religiosas, em especial o cristianismo, que muitas vezes são lembradas pelos canais nesta época do ano.

Quem assistia TV na década de 1970 vai se lembrar de uma série chamada Os Grandes Heróis da Bíblia/Greatest Heros of the Bible, que retratava a cada episódio uma passagem bíblica. Ao longo das décadas, a televisão americana também ofereceu diversas séries, minisséries e episódios que apresentam as aventuras de um anjo ou de um padre ou de freiras ou de pessoas que morreram e voltaram para ajudar o próximo, bem como histórias que acompanham a vida de um pastor e sua família e, é claro, incontáveis séries/episódios que lidam com o mundo sobrenatural.

No entanto, apesar da religião ser um tema presente nas séries americanas, o debate fé x igreja x sociedade somente começou a ser explorado de fato a partir da década de 2000. Isto porque este tipo de abordagem sempre foi considerada tabu, pois poderia ofender o público religioso e/ou afugentar o telespectador que não se interessava pelo assunto.

Desde o início da televisão, o veículo é acompanhado por instituições de cunho religioso representadas pelo National Council of Churches – NCC, que surgiu em 1950 da união entre a Federal Council of Churches (formada em 1908) e a International Council of Religious Education (formada em 1922). Em 1995, juntou-se ao NCC o Parents Council Television – PCT. A principal preocupação destas instituições é a de manter um nível moral e ético na programação televisiva, em especial na rede aberta, focados nos princípios religiosos. Para manter o controle sobre a mídia, grupos como o PCT utilizaram ao longo dos anos o recurso de boicotar produtos anunciados nos intervalos comerciais de programas considerados por ele como indesejáveis. Já o NCC optou pelo recurso de premiar as produções que correspondem às suas expectativas, buscando com isso encorajar a indústria a produzir mais programas deste tipo.

Sally Field em A Noviça Voadora (Foto: ABC/Divulgação/Arquivo)

Isto não significa que este órgão vigie apenas programas que tragam temáticas religiosas. Ele também busca controlar o nível de violência em todos os sentidos, de sexo e de apologia ao uso de drogas apresentados na TV, bem como o de promover a manutenção da instituição da família americana.

Assim sendo, no início da TV, o controle de seu conteúdo teve como base o Código Hays (que, entre outros, proibia a miscigenação; pessoas vivendo em pecado/crime/maldade; e a ridicularização das leis de Deus ou de representantes religiosos). Além deste código (que surgiu para controlar a produção cinematográfica, caindo em desuso na década de 1960), a TV também contava com regras próprias nas quais eram levados em conta os princípios religiosos, morais e éticos, aliados aos interesses comerciais do veículo e de seus anunciantes, temperados com a situação política de cada década. Esta foi a base utilizada para determinar o nível de cenas e histórias relacionadas a temas tabus, entre eles a religião.

Na década de 1950, a Igreja e instituições de cunho religioso também se tornaram produtores e roteiristas de programas (especiais e teleteatros) que celebravam uma data religiosa específica, como a Páscoa, Dia de Ação de Graças e o Natal. Atores como James Dean, por exemplo, iniciaram suas carreiras, paralelamente ao teatro, atuando em telepeças que apresentavam estas temáticas.

Buscando legitimação e aceitação da sociedade como um todo, a televisão tentou atender aos princípios morais da época, mas se recusou a promover abertamente uma religião específica (com exceção dos já mencionados programas produzidos por grupos religiosos). Isto porque qualquer referência a questões religiosas poderia incitar alguma forma de protesto por parte do público e dos anunciantes.

David Birney e Meredith Baxter em Bridget Loves Bernie (Foto: CBS/Divulgação/Arquivo)

Apesar disso, a influência da religiosidade se fez sentir nas produções televisivas, independentemente da abordagem direta ao tema. Ao longo dos anos, o público conseguiu facilmente perceber princípios religiosos nos diálogos ou situações apresentadas nas séries americanas de qualquer época ou gênero, a exemplo de personagens que oferecem a outra face, se recusam a matar (seja por aborto, eutanásia, assassinato, suicídio ou vingança), não cometem adultério (valorizando a família), não roubam, não mentem, amam ao próximo como a si mesmo (respeitando-o, perdoando-o e tratando-o como igual), respeitam os pais e os mais velhos (obedecendo quando criança e estabelecendo um diálogo quando adulto) ou colocam a felicidade/relacionamentos acima dos bens materiais.

Já as séries que apresentavam personagens seguindo uma determinada fé religiosa (muitas vezes sem retratar situações que pudessem gerar controvérsia) eram, em sua maioria, divididas entre católicas e protestantes, sendo que os primeiros eram melhor definidos e facilmente identificáveis. Mas apesar deste cuidado, algumas produções ofereciam pistas, símbolos, lugares ou comportamentos que permitiam ao telespectador identificar os princípios religiosos dos personagens. Por exemplo, em The Goldbergs, sitcom do final da década de 1940, era de conhecimento público que se tratava de uma família judia (religião pouco explorada pela TV americana, embora existam muitos personagens judeus), visto que ela frequentava uma Sinagoga. Em Papai Sabe Tudo/Father Knows Best (versão extremamente mais comportada que a produção original radiofônica) e Beaver/Leave it to Beaver, dos anos de 1950, as famílias seguiam os princípios cristãos.

Richard Chamberlain e Rachel Ward em Os Pássaros Feridos (Foto: ABC/Divulgação/Arquivo)

No início da década de 1960, o Papa João XXIII conquistava a simpatia de muitos para a Igreja Católica que, nesta época, realizou profundas transformações com o objetivo de modernizar a instituição e atrair os cristãos afastados da religião. Devemos nos lembrar que esta década foi o período que a contracultura dominou o imaginário dos jovens, sendo que muitos deles viam a Igreja como uma instituição antiquada e desnecessária, questionando a autoridade católica, representada em seu cotidiano pela figura de padres e freiras. Uma tentativa de reverter este quadro foi sentida no cinema, que ofereceu filmes que retratavam uma relação saudável destes representantes da igreja com os jovens de sua época (Dominique, A Noviça Rebelde, Anjos Rebeldes e sua sequência Diabruras dos Anjos Rebeldes, etc).

Na TV, estreou em 1962 O Bom Pastor, série estrelada por Gene Kelly que adaptava o filme de sucesso da década de 1940 Going My Way. Esta produção apresentava pela primeira vez na TV o cotidiano de um padre dentro da igreja, que realizava um trabalho importante em uma comunidade carente de Nova Iorque. A produção falhou miseravelmente, visto que, para não criar polêmicas, suavizou ao máximo os temas apresentados, tornando-se extremamente superficial e vazia (mesmo para a época).

Na mesma década, a TV americana estreou A Noviça Voadora, que conseguiu durar três temporadas. A história não se prendeu aos afazeres da igreja, focando nas situações de humor vividas pela protagonista. Esta era uma jovem noviça ávida por realizar suas tarefas em um convento de Porto Rico. Mas seu pouco peso e altura combinados com os fortes ventos do local e o chapéu de freira fizeram com que ela fosse capaz de voar. Vale ressaltar que, nestas duas produções, o padre e a noviça são pessoas com mentes abertas, que falam a linguagem dos jovens e enfrentam a postura rígida, por vezes antiquada ou ranzinza, de seus superiores, que nunca eram desrespeitados.

Na década de 1970, mudanças nas leis federais permitiram o surgimento de canais alternativos que utilizavam transmissões de satélites domésticos. Esses canais fizeram surgir um grande número de programas evangélicos diários ou semanais, patrocinados por diferentes instituições religiosas, que apresentavam sermões a uma congregação que trocou a ida à igreja pelo aparelho de TV ou que se encontrava em lugares remotos sem acesso a uma igreja.

Michael Landon e Victor French em O Homem Que Veio do Céu (Foto: NBC/Divulgação/Arquivo)

Em paralelo, na produção ficcional, além da já citada Os Grandes Heróis da Bíblia, e de Sarge, sobre um ex-detetive da homicídios que se torna padre, a TV americana também ofereceu nesta época duas produções familiares de sucesso que se apoiavam nos valores religiosos: A Família Walton/The Waltons e Os Pioneiros/Little House on the Prairie.

Mas foi nesta década que as topical sitcoms dominaram a programação americana, tendo como principal objetivo explorar temas polêmicos voltados a questões sociais, culturais, políticas e religiosas, em tom de comédia. Assim, estas séries ofereceram diversos episódios que questionavam os valores religiosos x sociedade. Suas principais representantes foram Tudo em Família/All in the Family, adaptação americana de série britânica, e M*A*S*H, adaptação de filme lançado em 1970 que, por sua vez, era a versão da obra de Richard Hooker. Esta última introduziu um padre como personagem recorrente, que questionava seus valores em meio a guerra.

No entanto, a produção que causou maior polêmica entre religiosos foi a sitcom Bridget Loves Bernie, adaptação da peça Abie’s Irish Rose que estreou em 1972. Nesta, o público acompanhou pela primeira vez o cotidiano de um homem judeu casado com uma mulher católica. Ao longo dos episódios, eles precisavam construir uma relação conciliando suas referências religiosas e dificuldades financeiras. Exibida entre Tudo em Família e Mary Tyler Moore, a série conquistou uma grande audiência (dizem que chegou ao quinto lugar) mas foi cancelada com uma única temporada produzida de 24 episódios. Apesar da abordagem ao tema ter sido considerada, mesmo para a época, muito suave (para não ofender o público), a sitcom sofreu ataques de católicos e judeus ortodoxos que a consideraram um insulto. Segundo a imprensa da época, produtores e atores chegaram a receber várias ameaças de morte.

Na década seguinte, a boa receptividade de minisséries como Masada e Jesus de Nazaré, e de telefilmes como A NatividadeSansão em Dalila, fez com que os canais americanos tomassem a decisão de produzir séries que, abertamente, exploravam a espiritualidade, independentemente de respaldar uma determinada religião. Foi assim que estreou Steambath, sobre almas que esperam no limbo seguir com suas vidas; e O Homem que Veio do Céu/Highway to Heaven, sobre um anjo que é enviado à Terra para, com o auxílio de um policial aposentado, ajudar aqueles que passam por momentos difíceis na vida. A primeira, adaptação de uma peça, foi cancelada com poucos episódios produzidos; mas a segunda fez um grande sucesso, o que garantiu a produção de outras séries na mesma linha, como O Toque de um Anjo/Touched By an Angel, Heaven Help Us, Joan of Arcadia, Dead Like Me Saving Grace, entre outras, que tratavam da vida após a morte e/ou da evolução espiritual. Produções sobre a tradicional família cristã seguiram em paralelo com séries como Sétimo Céu/7th Heaven e Christy.

Jude Law em The Young Pope (Foto: Sky Altantic/Divulgação)

Depois do 11 de setembro de 2001, quando os EUA foram atacados por terroristas islâmicos, temia-se e até esperava-se que uma onda de revolta produzisse um maior número de séries e filmes que questionassem a religião (em especial a islâmica). No entanto, apesar dos terroristas terem substituído os comunistas nas produções policiais e de espionagem, eles não se tornaram alvos de produções que abordam a religião. Ao invés disso, a TV americana começou a produzir séries (a exemplo de Aliens in America) e episódios que buscavam compreender melhor os princípios religiosos de culturas diferentes. Esta atitude denuncia o cuidado que os executivos e produtores ainda tinham ao abordar temas religiosos.

Em 2013, o sucesso de audiência da minissérie The Bible na TV a cabo (que gerou a sequência A.D.: The Bible Continues, na rede aberta) fez com que temáticas religiosas despertassem novamente o interesse da indústria televisiva. Tendo investido em documentários, bem como minisséries situadas no período bíblico, como Killing JesusThe Dovekeepers, The Red Tent e Of Kings and Prophets (sendo que as duas últimas não conseguiram conquistar a audiência), a TV americana vem trabalhando com mais interesse as séries que exploram temáticas religiosas e de fé pessoal contemporâneas.

Mesmo que timidamente, estas produções estão conseguindo tratar de forma direta questões relacionadas à fé x igreja x sociedade, sem a obrigatoriedade de assumir uma posição. Esta abordagem começou nos episódios das topical sitcoms dos anos de 1970, bem como na minissérie Pássaros Feridos, exibida na década de 1980. Nesta produção, adaptada da obra de Colleen McCullough, temos a história de um padre ambicioso e egoísta que se envolve romanticamente com uma mulher que ele ajudou a criar, a qual abandona para assumir um cargo de poder na igreja católica.

(E-D) Elizabeth Moss e Alexis Blendel em The Handmaid’s Tale (Foto: Hulu/Divulgação)

Nas últimas duas décadas, a TV americana ofereceu Carnivàle, Big Love, The Book of DanielThe Tudors, The Borgias, Battlestar GalacticaSave Me, A Gifted Man, Dig e, atualmente, Hand of God, The Exorcist, The Good Place, Outcast, The Arrangement, The Leftovers, Preacher e The Handmaid’s Tale (ainda inédita), bem como Transparent, The Americans e Vikings (que abordam a religiosidade de personagens), entre outras.

Entretanto, apesar de algumas destas produções serem situadas dentro de um determinado ambiente religioso, de um modo geral a TV americana ainda prefere colocar uma lente de aumento na fé individual (ou de grupos) x condição humana como uma forma de transformação pessoal e/ou social, mantendo o questionamento sobre o sistema religioso de uma ou mais instituições como pano de fundo. No momento, três produções que se aproximam deste debate, embora ainda mantenham o foco nos conflitos de fé e psicológicos de seus protagonistas, são The Path, GreenleafThe Young Popesendo esta última uma série britânica do canal Sky Atlantic, com coprodução da americana HBO e da francesa Canal Plus.

2 comentários em “A Religião nas Séries Americanas”

  1. Fernanda, a religião sempre foi um grande tema instigante em séries, como você bem descreveu neste post. À lista, acrescentaria também Quantum Leap (Contratempos), House (por que não?) e Being Erica (esta, canadense). Grande abraço!

  2. Uma vez que sou naturalista (em oposição a sobrenaturalista), minha preferência nesse quesito recai sobre a franquia ateia STAR TREK (Jornada nas Estrelas), onde ao longo de 723 episódios os personagens confrontam os dilemas morais mais diversos sem jamais apelar ao misticismo; baseando suas crenças e julgamentos somente em compaixão e evidências, ignorando completamente o tridente da fé (revelação, autoridade e tradição).

    EPISÓDIOS ONDE A RELIGIÃO É RETRATADA COMO UM MAL CONTRÁRIO À CIVILIZAÇÃO:
    TNG 3×04 QUEM OBSERVA OS OBSERVADORES? (Who watches the watchers?)
    DS9 1×20 NAS MÃOS DOS PROFETAS (In the hands of the prophets)
    DS9 4×17 ASCENÇÃO (Acession)
    VOY 3×23 ORIGEM DISTANTE (Distant Origin)
    ENT 3×12 REINO ESCOLHIDO (Chosen Realm)
    VOY 3×13 TROCA JUSTA (Fair Trade)

    EPISÓDIOS ONDE ALIENÍGENAS OPORTUNISTAS SÃO CONFUNDIDOS COM DIVINDADES:
    TOS 1×07 O ESTRANHO CHARLIE (Charlie X)
    TOS 1×17 O SENHOR DE GOTHOS (The Squires of Gothos)
    TOS 1×18 ARENA (Arena)
    TOS 1×26 MISSÃO DE MISERICÓRDIA (Errand of Mercy)
    TOS 2×01 CAMINHO DAS ESTRELAS/ O DIA DAS BRUXAS (Catspaw)
    TOS 2×02 METAMORFOSE (Metamorphosis)
    TOS 2×04 O LAMENTO POR ADÔNIS (Who mourns for Adonais?)
    TOS 2×09 FRUTO PROIBIDO (The Apple)
    TAS 1×21 A SERPENTE (How sharper than a serpent’s tooth)
    TNG 1×01 ENCONTRO EM LONGÍNQUA (Encounter at Farpoint)
    TNG 4×13 O PACTO (Devil’s Due)
    VOY 1×01 O GUARDIÃO (Caretaker)
    VOY 3×15 FALSOS PROFETAS (False Profits)

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