Twin Peaks, um Divisor de Águas

Kyle MacLachlan como o agente Dale Cooper de ‘Twin Peaks’ (Fotos: ABC/Arquivo)

Desde que as séries surgiram no final dos anos 40 na televisão, elas vêm se desenvolvendo dentro de regras e fórmulas nas quais são estabelecidos temas abordados, narrativa, estética e, principalmente, a moral e o comportamento cívico dos personagens.

Apesar destas regras predominarem, entre os anos 40 e 70 a televisão foi capaz de oferecer neste período algumas produções que conseguiram, mesmo que timidamente, romper parte ou todos esses padrões.

Nos anos 50, I Love Lucy e The Honeymooners na comédia, Alfred Hichtcock Apresenta Cidade Nua, no drama, e Além da Imaginação na ficção científica, foram as precursoras dos rompimentos desses moldes hermeticamente fechados. Na década de 80, cresceu o número de séries que traziam em seu elenco fixo personagens com um certo grau de ambiguidade e comportamentos que poderiam levar ao questionamento de sua moral. Isto, é claro, são consequências das produções oferecidas entre os anos 60 e 70, em especial as topical sitcoms. Entre as produções da década de 1980 que vale a pena mencionar está O Homem da Máfia, série que trouxe um representante da lei vivendo no submundo do crime, o que o leva, muitas vezes, a se questionar que caminho seguir.

Então, em 8 de abril de 1990 estreou na TV americana Twin Peaks, série que marcou a ruptura entre o ontem e o hoje no universo dos seriados. Criada por David Lynch e Mark Frost, a série trouxe para o formato uma história complexa, intrigante e muitas vezes desconcertante para um público acostumado à divisão entre o bem e o mal. Twin Peaks era uma novela noturna (gênero que cresceu nos anos 80), embalada em uma estética cinematográfica (que estabeleceu um novo padrão no fazer seriado). Brincando com fórmulas, a série ofereceu ao telespectador uma produção que se libertava de fórmulas.

Muitos poderão argumentar que Twin Peaks foi o resultado das produções acumuladas nas décadas anteriores, o que é absolutamente verdade. No entanto, ela se tornou revolucionária a partir do momento que se livrou de amarras morais estabelecidas pela televisão e promoveu mudanças significativas na produção do formato, que nunca mais foi o mesmo. O desenvolvimento de personagens e situações propostos por Twin Peaks é explorado até hoje. Nada do que vemos atualmente seria possível sem ela. Qualquer produção hoje considerada revolucionária, é, na verdade, uma evolução da verdadeira reviravolta narrativa que Twin Peaks promoveu.

A produção

(E-D) Cooper e o Xerife Truman.

Desde 1986, quando Lynch lançou o filme Blue Velvet, a Warner Brothers tinha interesse em desenvolver um projeto de série com o diretor e roteirista. O problema é que ele não tinha interesse pelo formato.

Ao ser contratado pelo estúdio, Lynch logo se envolveu no projeto de um filme sobre a vida de Marilyn Monroe. Pouco depois o projeto foi engavetado. Tentando mantê-lo, a Warner o apresentou a Mark Frost, um dos roteiristas de Chumbo Grosso/Hill Street Blues, com quem Lynch trabalhou no desenvolvimento do roteiro de uma nova comédia com Steve Martin e Martin Short. Novamente o projeto foi engavetado. Mas, nesse meio tempo, Lynch e Frost se tornaram amigos.

Então, Tony Krantz, agente de ambos pela Creative Agency, sugeriu que os dois desenvolvessem um projeto de uma série de TV, nem que fosse para passar o tempo, já que os filmes que tentaram desenvolver não tinham dado certo. Foi então que surgiu The Lamurians, um projeto de série que girava em torno de uma equipe de detetives tentando eliminar a infiltração de alienígenas na Terra. O projeto fazia parte do contrato que a dupla tinha assinado com a NBC para desenvolver uma nova série. No entanto, o canal não gostou da proposta e decidiu não produzir o piloto. Tendo três rejeições nas mãos (dois filmes e uma série), a dupla, já frustrada, começou a trocar ideias sobre a vida no interior.

Assim, Lynch e Frost começaram a desenvolver Twin Peaks quando, juntos, desenharam o mapa de uma pequena cidade e seus principais pontos de referência. A partir da cidade, surgiram os moradores, influenciados por lembranças pessoais, além dos filmes Blue Velvet e Caldeira do Diabo/Peyton Place (produção com base em um livro, que também foi transformado em novela noturna nos anos 60). Depois de criarem o mapa da cidade e definirem os principais moradores, eles tiveram a ideia de ‘sujar’ o cotidiano dessa aparentemente pacata cidade colocando o corpo de uma jovem boiando no rio. Assim que fizeram isso, os dois perceberam que tinham um projeto em mãos.

Ele foi apresentado à ABC em 1988, durante a greve dos roteiristas; e em 10 minutos de exposição, o canal comprou a ideia e encomendou a produção de um roteiro para o piloto. Inicialmente batizado com o título de Northwest Passage, o piloto da série apresentava ao público o interior dos EUA no qual, camada por camada, os personagens começavam a ser despidos. Orçado em 1.8 milhões de dólares, o piloto foi produzido e apresentado à emissora.

Josie e Truman

Apostando na proposta, mas não acreditando que o público a recebesse de braços abertos, a emissora encomendou a produção de mais sete episódios e programou a estreia da série para a Mideseason de 1990. Para garantir um retorno do investimento e explorar o nome de Lynch no mercado internacional, a emissora encomendou a produção de uma cena final, na qual seria revelada a identidade do assassino de Laura Palmer (a jovem que é encontrada boiando no rio). Dessa forma, caso a série não fosse renovada para uma segunda temporada, o canal poderia lançar os oito episódios em formato minissérie no exterior.

Originalmente, a intenção de Lynch e Frost não era a de dar um nome ou um rosto ao assassino. Na concepção da série, a morte de Laura era apenas uma desculpa, uma porta de entrada, para dar início a uma história que tinha como objetivo explorar as camadas que compõem um ser humano e a sociedade em que está inserido. Esse era o verdadeiro enredo de Twin Peaks e para essa história, não existe um final. Mas a visão limitada do mercado, da emissora e do público, fez com que uma resposta explicativa e definitiva fosse produzida.

A primeira temporada de oito episódios encerra com um cliffhanger. A segunda tem início do ponto em que a primeira terminou, sendo que, atendendo às exigências da emissora, o assassino é revelado no sétimo episódio de uma temporada que tinha um total de vinte e dois. O que fazer com o restante da história?

A partir da revelação de quem teria matado Laura, o público médio, que só estava assistindo a série para descobrir a identidade do assassino, trocou de canal. Sua curiosidade já estava satisfeita e as nuances dos personagens ou a simbologia da série não lhes interessava. A partir daí, a história desandou. Sem o apoio do mistério que cercava a morte de Laura, a série perdeu seu ponto de referência. Este mistério era a base realista que alinhavava o imaginário e o surrealismo dos personagens e da cidade. Sem ele, a história ficou solta. A tentativa de amarrá-la em uma trama na qual temos Cooper e o Xerife Truman tentando desbaratar o tráfico de drogas e prostituição da região (bem como as demais tramas que se seguiram) não conseguiu ser forte o suficiente para dominar a complexidade dos personagens e seus comportamentos bizarros.

Para complicar ainda mais a situação, Lynch e Frost começaram a se dedicar a outros projetos, o que lhes deixava pouco tempo para supervisionar os roteiros dos episódios restantes da série. Perdendo ainda mais a audiência, a série foi cancelada. Ainda assim, foi produzido um filme que narrava Os Últimos Dias de Laura Palmer/ Laura Palmer: Fire Walk With Me. Lançado no mercado nacional e internacional, o filme foi um fracasso nas bilheterias americanas, mas recebido de braços abertos pelo público europeu e asiático.

Sheryl Lee como Laura Palmer

O Prelúdio da Série

A história, um prelúdio da série, não contou com as presenças de Sherilyn Fenn, a intérprete de Audrey; nem tampouco da atriz Lara Flynn Boyle, que teve seu personagem, Donna, interpretado por Moira Kelly, de One Tree Hill. Tanto Sherilyn quanto Lara estavam decepcionadas com os rumos que a história de Twin Peaks tinha tomado, e com o abandono de Lynch e Frost. Mesmo o ator Kyle McLachlan, intérprete de Cooper, precisou ser persuadido a voltar a interpretar o agente no filme. O ator aceitou, mas limitou sua presença na história. Desta forma, o filme inicia com as investigações do assassinato de Teresa Banks, a última jovem morta antes de Laura. O agente Desmond (Chris Isaak) é incumbido de conduzir as investigações, com a assistência de Sam (Kiefer Sutherland). Quando Desmond desaparece, Cooper recebe a missão de descobrir seu paradeiro, mas sem sucesso. Um ano depois, a história passa a narrar os últimos dias de Laura, novamente interpretada por Sheryl Lee.

A História da Série

Twin Peaks foi uma série desenvolvida a partir da psicologia e do comportamento de seus personagens, os quais definiam a história; e não uma série cuja história definia o tipo de comportamento de seus personagens. Tanto o texto quanto os cenários, as cores, o figurino, a trilha sonora e os movimentos de câmera, tinham como objetivo expor as maldades dos personagens bons em contraste com a bondade dos personagens maus; sendo que eles eram embalados pela dor da solidão e da perda. Cada episódio, com exceções, representa um dia na vida dos personagens.

A trama tem início quando, em uma pacata cidade do interior dos EUA, o corpo de uma adolescente é encontrado embalado em plástico boiando no rio. As características de sua morte levam o agente do FBI, Dale Cooper (McLachlan) a assumir a investigação do caso, mantendo uma parceria com o Xerife Truman (Michael Ontkean). Há tempos Cooper caça um assassino em série e Laura Palmer pode ter sido mais uma de suas vítimas. A partir das investigações da dupla, abre-se para o público diferentes histórias vividas pelos habitantes da cidade, todas, de alguma forma, interligadas às investigações da morte de Laura.

Truman mantém um caso secreto com Josie (Joan Chen), herdeira da principal serraria da cidade. Josie é viúva do irmão de Catherine (Piper Laurie), que não aceita a imigrante chinesa como membro da família. Casada com Pete (Jack Nance), Catherine manipula o marido e o amante contra Josie; sem perceber que através deles, ela é manipulada pela cunhada.

(E-D) Norma e Shelley.

Além da serraria, a cidade também tem um dos principais hotéis da região, o Great Northern, onde Cooper fica hospedado. Seu proprietário, Ben Horne (Richard Beymer) é um homem que mantém os negócios acima dos interesses da família, a qual é composta por sua esposa Sylvia (Jan D’ Arcy), que vivia mal-humorada; a filha Audrey (Fenn), que não se conforma com a monotonia da cidade pequena; e um filho que é deficiente mental. Um de seus funcionários é Leland (Ray Wise), pai de Laura, um advogado emocionalmente instável, casado com Sarah (Grace Zabriskie ), uma mulher que, até a morte de Laura, comandava com punho de ferro as vidas dos membros da família.

Laura tinha como melhor amiga a colega de classe Donna (Boyle), jovem apaixonada por James (James Marshall) que por sua vez era apaixonado por Laura. Mas esta namorava Bobby (Dana Ashbrook), o encrenqueiro da escola, que mantinha um caso secreto com Shelly (Mädchen Amick), a garçonete do Double R, a lanchonete mais popular de Twin Peaks. Shelly era casada com Leo (Eric Da Re), um caminhoneiro que pouco se importava com a esposa, a quem dominava através do terror e de atos violentos.

O Double R, ponto de encontro de muitos personagens, pertencia a Norma (Peggy Lipton), que mantinha um caso com Big Ed (Everett McGill), tio de James casado com Nadine (Wendy Robie), uma das loucas de plantão. Entre os frequentadores da lanchonete estava Margaret, mais conhecida como a mulher do tronco (Catherine E. Coulson), por carregar um pedado de madeira como se fosse um bebê. Uma espécie de bruxa, a mulher do tronco costumava ‘ver e ouvir’ coisas que a levavam a se tornar uma chave importante nas investigações de Cooper.

Apesar da fama de boa moça de Laura, a jovem escondia do público seus verdadeiros sentimentos e opiniões sobre a vida em Twin Peaks, algo que ela costumava compartilhar, de certa forma, com seu psicólogo, o Dr. Jacoby (Russ Tamblyn), homem obcecado por sua paciente favorita. Laura também mantinha um diário, que servia de guia nas investigações de Cooper.

Ao longo da história outros personagens foram surgindo, formando uma teia complexa de relações e tramas (para a época) que formaram essa série. Por curiosidade, a produção trouxe participações especiais de atores como David Duchovny, como um gente que gostava de se vestir de mulher; Alicia Witt, como a irmã caçula de Donna; Clarence Williams III, como um agente que substitui Cooper quando ele é suspenso; Billy Zane, como um amigo de Ben que se apaixona por Audrey; Heather Graham, como a paixão de Cooper; Molly Shannon, como Judy, uma assistente social; e, é claro, Lynch, como um agente quase surdo.

A estética cinematográfica

Nadine e Ed

Quando Alfred Hitchcock foi para a televisão em 1955, nenhum diretor de peso do cinema o seguiu. Ao contrário, a TV fez surgir profissionais que mais tarde se tornariam grandes diretores de cinema. Quando Lynch chegou em 1990, ele abriu as portas para que, gradualmente, cineastas renomados imprimissem sua marca nas séries e minisséries televisivas. Ao longo dos anos, a TV a cabo se tornaria reduto principal dessa ‘gente de cinema’, mas foi Twin Peaks que iniciou essa transição.

Lynch entrou na televisão manipulando seu conteúdo e seus símbolos. Ele não elevou a televisão ao nível do cinema como mais tarde foi visto em produções como A Família Soprano. O que ele fez foi levar o cinema aos seriados de televisão, que atingiu um novo nível. Em Twin Peaks, Lynch explorou a narrativa das novelas (com seus melodramas, personagens e segredos que são aos poucos revelados), apresentando uma trama policial com visual de filme noir e toques de surrealismo. Em seu conteúdo, ele e Frost reciclaram a cultura popular americana e suas convenções, reformulando narrativas e fazendo uso do visual kitsch. Algo que hoje Ryan Murphy procura fazer em suas produções.

A série trabalhava basicamente em dois planos: o do consciente e o do subconsciente, o qual se manifestava na forma de sonhos, visões, dimensões e signos diversos. Tempo e espaço se confundiam, com a presença de personagens dos sonhos aparecendo na vida real e a presença de Cooper em seus sonhos. Ao mesmo tempo, criou-se um terceiro universo, visto em paralelo através da novela Invitation to Love, assistida por alguns personagens da série. Esta novela fazia uma alegoria na qual temos os mesmos tipos de pessoas que eram apresentadas em Twin Peaks, mas em uma narrativa pura de novela televisiva, enquanto que nós, público real, acompanhávamos os personagens da série, que tinham todos os elementos de uma novela, mas eram embalados em um tratamento cinematográfica. Algo que Pedro Almodóvar fez no cinema.

A história de Twin Peaks se apoiava nos contrastes: o fogo dos personagens em relação ao ambiente gélido; o bem e o mal no comportamento de cada indivíduo; o sonho e a realidade; personagens ‘normais’ e aqueles típicos do folclore e contos de fadas; e a morte em relação à vida, vistas através da quantidade de animais empalhados e de ambientes de madeira (árvores mortas), em meio ao qual acompanhamos os personagens conduzindo suas vidas.

A metáfora mais marcante entre o ‘claro e o escuro’ com certeza era a existência de uma espécie de céu e de inferno, representados pelo White Lodge e Black Lodge, dois lugares localizados em outra dimensão da qual faziam parte o Gigante (que habita os sonhos de Cooper) e Bob, respectivamente. O portal de acesso a eles ficava na floresta, a qual é símbolo do interior do ser humano.

Os diálogos de Twin Peaks acompanhavam essas nuances, oferecendo uma dualidade entre imagem-fala-expressão facial, fugindo da tendência que muitas séries tinham em explicar didaticamente os sentimentos e opiniões de personagens. Os comentários de Cooper sobre o comportamento humano, a natureza ou a comida, se transformavam em alegorias e pistas importantes nas investigações do agente. Além disso, a série fez uso das tomadas que exploravam o silêncio, expondo os sentimentos dos personagens e suas feridas. A câmera dava tempo aos atores/personagens de processarem uma informação e de reagir a ela. Logo no piloto temos um movimento de câmera que fugia aos padrões televisivos, poucas vezes rompidos ao longo de quatro décadas. Nesta cena, a mãe de Laura toma conhecimento da perda da filha quando está ao telefone falando com o marido. Ao invés da câmera mostrar o rosto da mãe, depois do marido e depois da mãe, ela, a câmera, acompanha o fio do telefone, descendo lentamente, enquanto o choro e o desespero da mãe, ao som da trilha sonora composta por Angelo Badalamenti, vai se aprofundando. Nesta cena, a série deu tempo à dor.

A própria trilha mencionada é um personagem à parte, explorando a dor e a solidão dos moradores de Twin Peaks. A mesma abordagem ocorre com as tomadas da cidade vazia em contraste à natureza, ou as cores dos ambientes e figurinos, as quais tendiam para o vermelho e o azul simbolizando paixão, dor, tristeza e solidão.

Os Personagens e Alguns de seus Símbolos

Audrey e Cooper

A série ‘violentou’ o sonho americano, que tem como base os aspectos religiosos e políticos de uma sociedade que vem se formando desde sua independência. Através do comportamento de seus personagens, foram explorados temáticas relacionadas à fé, religião, ciência, política, sociedade e família que traziam à tona suas ambiguidades e suas verdadeiras intenções. Não farei aqui uma análise de cada personagem, já que esta é uma postagem e não uma monografia. Mas vale a pena ressaltar, através de dois deles, algumas questões que foram exploradas, e tabus que foram rompidos, seja através da trama explícita, seja através da interpretação de alguns de seus símbolos.

A personagem feminina é tradicionalmente apresentada na TV em duas versões: a da prostituta que precisa buscar uma redenção para ser aceita pela sociedade ou a da virgem que se casa e se torna a esposa perfeita. Laura uniu as duas versões; ela representava a namoradinha da América que, por trás das aparências, era uma mulher com desejos os quais a levavam a uma vida de promiscuidades. Ao introduzir a personagem na série, ela aparece morta, fato este que simboliza, justamente, o fim da heroína com imagem imaculada. Pois, logo que as investigações têm início, a segunda imagem de Laura começa a se formar.

A morte de um perfil amplamente explorado também é vista através do personagem do agente Cooper, uma caricatura de Lynch e Frost. Ele representa o herói com a moral imaculada, a imagem do americano ideal, a personificação do governo e do representante de Deus que, ao longo de toda a série, se deslumbra com as nuances do ser humano, com a beleza da natureza e de uma sociedade, enquanto passa por provações as quais poderiam modificar seu caráter ou seu comportamento. No entanto, Cooper permanece imaculado, tal qual o herói das séries de TV ao longo de quatro décadas. Mas, ao chegar no último episódio, essa imagem também chega a seu final. Quando Cooper se olha no espelho, Lynch mostra à América o perfil que surgiria a partir dali: o mal e o bem se uniram, transformando para sempre o herói das séries de TV.

O Legado da Série

Assistir a Twin Peaks hoje, com o olhar que foi evoluindo ao longo dos anos, poderá parecer para o telespectador desavisado que se trata de uma série ultrapassada e até meio trash. Isso porque a evolução que o formato seriado sofreu desde então trouxe um refinamento daquilo que foi proposto originalmente. Daqui a 20 ou 30 anos o mesmo ocorrerá com as produções de hoje consideradas pela crítica e pelos fãs como revolucionárias.

Embora a TV aberta tenha se beneficiado com as mudanças promovidas pela série, são as produções da TV a cabo (e de streaming) que mais usufruem de seu legado. A TV aberta conseguiu pegar os elementos revolucionários de Twin Peaks e encaixá-los nas fórmulas e tipos que compõem uma série de TV, oferecendo produções inovadoras por um lado, mas que, por outro, são formatadas. Em contrapartida, uma boa parte da produção da TV paga mantém a verdadeira liberdade criativa proposta por Twin Peaks, no mesmo nível em que explora estéticas e desenvolvimentos narrativos, aliados ao estudo de personagens mais complexos.

Agora os fãs de Twin Peaks se preparam para seu retorno, que ocorrerá nos EUA no próximo dia 21 de maio. A nova temporada, encomendada pelo canal Showtime, é novamente estrelada pelo mesmo elenco, ou parte dele. Seu retorno se deve a uma nova mania dos canais americanos que, antes, encomendavam remakes (muitos deles dispensáveis), e agora encomendam nova temporada de antigos sucessos da TV, com os mesmos atores. Ainda não se sabe em que canal os novos episódios da série serão exibidos no Brasil, ou o dia de sua estreia.

ADENDO (19/05/2017): o retorno de Twin Peaks estreia no Brasil no dia 22 de maio pelo Netflix.

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Texto originalmente publicado em abril de 2010 no Blog Revista TV Séries, no qual fui colunista entre 2006 e 2010.

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2 comentários em “Twin Peaks, um Divisor de Águas”

  1. Texto fabuloso. Rico em detalhes e que explora o universo paralelo de Twin Peaks. Estou contando os dias para me fartar de boas histórias a la Lynch. Afinal, o mundo precisa de gênios como o diretor de ERASERHEAD e o Homem Elefante.

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