Outlander: Amor Através do Tempo

 

Outlander é uma série de fantasia (disponível no Brasil no NOW na íntegra pela Claro Video e Fox Premium e primeira temporada no Netflix), adaptada da obra de Diana Gabaldon e desenvolvida para televisão por Ronald D. Moore, que narra as aventuras de Claire Randall (Caitriona Balfe), uma enfermeira britânica que, acidentalmente, viaja para o passado, 200 anos antes, no ano de 1743. Lá ela conhece, eventualmente se casa com o highlander Jamie Fraser (Sam Heughan) e acaba se envolvendo em eventos históricos.

Diana Gabaldon

Gabaldon conta que resolveu escrever Outlander para praticar. Tendo assistido uma reprise de “The War Games”, episódio da série Doctor Who clássica, ficou com a imagem de Jamie McCrimmon (Frazer Hines), o companheiro escocês do Segundo Doutor (Patrick Troughton), e decidiu ambientar seu romance na Escócia do século XVIII. Logo a personagem de Claire cresceu e se tornou muito “moderna”, levando a autora a transformá-la numa viajante do tempo, tal como o Doutor, na série que foi a inspiração original. Atenção: o texto a seguir contém spoilers!

Drama, romance e aventuras se desenrolam em belíssimas paisagens, com cenas que vão do suspense à delicadeza, passando, contudo, por cenas de muita violência física, sangue e feridas expostas e também de nudez e sexo, recursos que podem sugerir uma compensação por um enredo fraco ou personagens mal construídos. No entanto, Outlander se sustenta porque os personagens são críveis e fatos históricos dão apoio ao desenvolvimento da ação.

Claire Beauchamp

Como pode uma mulher do século XX adaptar-se tão rapidamente à dura vida do interior da Escócia no século XVIII? Bem, órfã de pai e mãe, Claire cresceu com o tio arqueólogo, passou a infância indo a toda parte, dormindo em tendas em sítios arqueológicos, certamente com conforto e higiene mínimos. Convivendo com o tio e, posteriormente, com o marido historiador, Claire adquiriu conhecimento de detalhes históricos que a ajudam a se localizar na cultura na qual foi jogada de súbito. Além disso, acabara de servir no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial, atuando nas frentes de batalha, onde auxiliou em inúmeras cirurgias de emergência em condições extremamente precárias, testemunhando dor, sofrimento e mortes violentas. Seu interesse por botânica e plantas medicinais permitem que ocupe a posição de curandeira no Castelo Leoch, ganhando o apreço e admiração de seus habitantes.

Jamie Fraser

Quanto a Jamie Fraser, trata-se mesmo de um personagem bastante idealizado. Não sei se existiriam homens como ele na época e lugar onde se passa o romance, mas, da maneira como foi escrito, ele tem todas as condições de formar o tipo de parceria que tem com Claire. Jovem, bonito, forte e inteligente, Jamie é filho de um fazendeiro, herdeiro das terras do pai, e sobrinho do chefe do clã MacKenzie, por isso teve um tutor e recebeu educação formal. Fala gaélico, inglês e francês, estudou latim e grego e é tão hábil no tabuleiro de xadrez quanto o é nos campos de batalha. Como soldado, lutou com os franceses na Espanha. Bem-humorado, estrategista nato, líder e bom conciliador, Jamie também demonstra nobreza de caráter e grande valentia, pois deixa-se espancar ou luta sem hesitar para proteger mulheres em situação de perigo. Honesto, fala candidamente sobre seus sentimentos com Claire e decide confiar nela sem pedir explicações sobre seu passado. Tem, portanto, qualidades mais do que suficientes para despertar o interesse da jovem inglesa.

Frank Randall

Frank Randall (Tobias Menzies), primeiro marido de Claire, não tem a beleza exuberante de Jamie, mas exibe um discreto charme noir. Possui uma personalidade mais introspectiva, gentil, com tendência à melancolia e um lado mais violento, que procura esconder ou controlar. Não temos muita informação sobre a vida de Frank nestas duas temporadas, exceto que ele trabalhou com o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial e ama a esposa o bastante para compreender e aceitar uma possível infidelidade de Claire durante os anos servidos na Guerra.

Claire e Frank

A história, baseada no livro Outlander, começa quando Claire e Frank estão em segunda lua-de-mel na cidade escocesa de Inverness. Separados durante seis anos pela guerra, o casal tenta retomar seu casamento e a paixão que partilhavam no início do relacionamento. Frank está também interessado em pesquisar sua árvore genealógica. Descobrindo ser o descendente de “Black” Jack Randall (também interpretado por Tobias Menzies), capitão do Oitavo Regimento de Dragões de Sua Majestade, Frank leva Claire numa turnê por ruínas de castelos e locais onde foram travadas batalhas entre o exército britânico e os rebeldes jacobitas, que desejavam ver no trono o católico Jaime Stuart.

“Black” Jack Randall

Chegando no fim de semana do Halloween, Claire e Frank assistem, escondidos, a um ritual de magia num círculo de pedras chamado de Craigh na Dun e Claire decide voltar no dia seguinte para coletar amostras de uma planta medicinal. Ao tocar na pedra mais alta, Claire desmaia e acorda em 1743 em meio a um tiroteio entre rebeldes escoceses e soldados britânicos, também conhecidos como Red Coats (Casacas Vermelhas). A primeira pessoa que Claire encontra é Jack Randall, que ela confunde com o marido Frank, mas logo se percebe do erro e tenta escapar. Atacada por Black Jack, acaba sendo resgatada pelos rebeldes liderados por Dougal MacKenzie (Graham McTavish), que a levam consigo. Claire recebe alguma confiança quando trata de Jamie, reposicionando seu braço deslocado e limpando suas feridas.

No castelo Leoch, conhece Colum Mackenzie (Gary Lewis), chefe do clã. Lá, também faz amizade com Geillis Duncan (Lotte Verbeek), uma mulher estranha que fornece ervas medicinais e amuletos mágicos para os residentes, com Laoghaire MacKenzie (Nell Hudson), uma jovem apaixonada por Jamie, e com sua avó, Mrs. Fitzgibbons (Annette Badland), que simpatiza com Claire e a acolhe.

Jamie e Claire em Lallybroch

A primeira temporada narra como Claire acaba se casando com Jamie para se tornar escocesa e não ser levada para Fort Williams pelos ingleses, que querem informações sobre atividades ilegais dos rebeldes. Alternam-se momentos onde “ela está em perigo, ele vai salvá-la” e “ele está em perigo e ela vai salvá-lo” que mostram o amadurecimento da relação do casal em direção a uma parceria cada vez mais comprometida.

Geillis e Claire no julgamento

Após Claire conseguir escapar de um tribunal onde ela e Geillis são julgadas como bruxas, ela finalmente conta sua fantástica história de viagem no tempo para Jamie, que acredita nela. A partir daí, Claire toma a decisão de ficar ao lado de Jamie no passado. Mas os percalços continuam e a temporada encerra num tom pesado.

Na segunda temporada, baseada no livro Dragonfly in Amber, o casal vai para a corte francesa e, graças ao primo de Jamie, consegue circular nas altas camadas da sociedade parisiense. Neste momento, estão decididos a evitar o levante jacobita, recorrendo a intrigas, sabotagens e maquinações. Por um momento, parecem pessoas completamente diferentes, mas um acontecimento trágico causa um choque e ameaça o casamento, fazendo com que retornem para a Escócia, desta vez empenhados em levar o levante jacobita para a vitória usando o conhecimento de Claire sobre o futuro.

Jamie e Claire em Paris

Trata-se, pois, de uma série de entretenimento com aventuras e romance. O diferencial para histórias deste tipo é que se trata de uma visão feminina. Não que personagens femininas fortes sejam novidade na literatura. Mas, ao contrário das heroínas de Jane Austen e das irmãs Brontë ou, mais modernamente, das personagens de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que trazem a perspectiva feminina numa sociedade patriarcal, Outlander coloca sua heroína num papel em que normalmente encontraríamos um homem.

Em aventuras com personagens masculinos, o herói intrépido e invencível enfrenta muitos perigos e se envolve com mulheres irresistíveis. Em Outlander, temos uma heroína intrépida e invencível que enfrenta muitos perigos e se envolve com homens irresistíveis. Aparentemente, contudo, e falando de modo generalizado, enquanto homens tendem a fantasiar encontros sexuais fortuitos com mulheres quase desconhecidas e potencialmente perigosas, mulheres se empolgam com o companheiro perfeito, digno de total confiança e capaz de despertar paixão intensa.

Jamie e “Black” Jack

Jamie Fraser é quase um super-homem. Frank Randall é o marido compreensivo, adorável e apaixonado e Ian Murray (Steven Cree), cunhado de Jamie, um marido companheiro, manso e bem-humorado, perfeito para o temperamento tempestuoso de Jenny (Laura Donnelly). Outras mulheres também ocupam um espaço mais masculino, tais como Jenny que, junto com Claire, rastreia o exército britânico que levou Jamie cativo; Geillis, que ajuda a financiar o exército jacobita ou Madre Hildegarde (Frances de La Tour), que dirige sozinha um hospital de caridade em Paris.

Jenny e Ian

Outro aspecto interessante é a questão da viagem no tempo, onde temos basicamente duas alternativas quando o destino é o passado: ou pode-se mudar o futuro, como vemos em Contratempos ou em El Ministerio del Tiempo ou então toda e qualquer ação já estava prevista e fazia parte da história desde sempre. Este é o caso de Outlander, particularmente na segunda temporada, quando o casal mergulha nos eventos históricos tornando-se parte deles.

É interessante observar que, ao tentar evitar a batalha de Culloden, Claire recorre a esquemas tradicionais de manipulação sem se perguntar se não foram estas mesmas as atitudes que resultaram no massacre original. “Será que nos tornamos pessoas más?”, pergunta Claire. “Do meu ponto de vista, estamos fazendo uma coisa má, mas por um objetivo bom”, diz Jamie. “Não é isso o que dizem as pessoas más?”. Pois é.

Jamie em batalha

A importância de se conhecer a História é aprender com ela, evitando os erros trágicos. Mas será que determinadas ações não são parte inseparável de um momento e condições específicos? E, sendo assim, mesmo tendo o conhecimento do futuro, seria impossível alterar um comportamento? Em Peggy Sue Got Married, filme de 1986, Peggy Sue (Kathleen Turner) volta ao tempo de sua própria adolescência e acaba retraçando seus passos, mesmo sabendo que estes a levariam a um casamento infeliz.

Naturalmente, uma vez que viagens no tempo só acontecem na ficção, não poderíamos saber. Mas se o dia de hoje é o passado de amanhã, como poderíamos construir um futuro desejável sem repetir ações que já se provaram nefastas? Ao se engajar em mentiras e traições, o casal reforçou a corrente de discórdias e disputas que já existia. Qual o bem que poderia vir disto? E se, ao invés dos fins justificarem os meios, os meios determinarem os fins? Será que os resultados que obtemos não dependem justamente do método utilizado para atingi-los e do teor de nossas escolhas?

Brianna e Roger

Reflexões à parte, a grande força da narrativa é o arco dramático construído a partir da viagem no tempo, que se torna quase uma saga familiar, com Claire testemunhando o casamento dos antepassados de seu marido Frank e levando para o futuro a filha ainda não nascida de Jamie. Heroína de duas vidas distintas, passado e presente (que para ela é o ano de 1948), estes dois mundos começam a se encontrar no final da segunda temporada, quando sua filha adulta, Brianna (Sophie Skelton), questiona a verdadeira identidade de seu pai e, juntamente com Roger (Richard Rankin), dará o ponto de partida para novas aventuras de Claire, a partir da terceira temporada.

A série oferece uma bela composição de época, cenário e figurinos bem cuidados e um elenco afinado, muito sintonizado. Mas é também uma história de amor e as histórias de amor não precisam de mais justificativas para serem contadas. Seja o amor entre um casal, entre pais e filhos, irmãos e irmãs, entre amigos, ou de um homem e uma mulher por sua casa, seu lar, seu trabalho ou ainda de um povo por sua terra e suas tradições, o amor é o que dá sentido à vida e por isso se basta. E Outlander tem tudo isso.

 

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