A Mulher-Maravilha, dos Quadrinhos para a TV

No mês de maio, estreou nos cinemas o primeiro filme de longa metragem estrelado pela Mulher-Maravilha, super-heroína dos quadrinhos criada por William Moulton Marston. O filme percorreu um longo caminho para chegar ao público, tendo começado a ser desenvolvido ainda na década de 1990. Tal como aconteceu no cinema, a personagem também levou um bom tempo para conseguir deixar sua marca na TV, com uma série produzida na década de 1970.

Marston, um conhecido psicólogo americano, era um ávido leitor de HQ, mas também um de seus maiores críticos. Professor de psicologia da Columbia University, autor de livros, colaborador da revista Reader’s Digest e palestrante, Marston foi o inventor de um teste de pressão sanguínea que se tornaria um dos componentes para o polígrafo (detector de mentiras).

Ele também era defensor do feminismo. Através de seus textos, ele dava conselhos a mulheres e apresentava seu ponto de vista a respeito do casamento, da obediência ao homem e da posição da mulher na sociedade. Para ele, uma mulher deveria ocupar o cargo de Presidente da República. Como psicólogo, Marston atacou o universo dos super-heróis dos quadrinhos, acusando-o de machista por não dar às mulheres personagens com os quais poderiam identificar-se. Em sua opinião, as meninas não desejavam ser meninas porque não existiam personagens femininas fortes e carismáticas, apenas mulheres que apareciam para atrapalhar o herói ou criar situações nas quais eles poderiam mostrar sua superioridade.

As críticas de Marston chamaram a atenção da DC Comics, que o convidou a assessorar seus roteiristas, oferecendo-lhes o ponto de vista psicológico dos personagens e como deveriam ser passados para o público adolescente. Nesta sua função, ele recebia os textos e fazia observações a respeito de mudanças que deveriam ser feitas nos personagens ou mesmo nas histórias. Com o tempo, foi convidado a criar um super-herói que refletisse suas teorias. Assim surgiu a Mulher-Maravilha, que Marston criou utilizando o nome de Charles Moulton. Fisicamente bonita, feminina, extremamente inteligente e com a força de muitos homens, a personagem, que surgiu em um universo masculino, utilizava roupas provocantes (para a época).

Vivendo situações que atraíam o interesse masculino, entre elas, a de ser presa e amarrada, ficando à mercê de seus opressores, a Mulher-Maravilha sempre dava a volta por cima. Para as mulheres, as situações representavam a idéia de que era possível libertar-se das ‘amarras da sociedade masculina’. Estudioso da cultura grego-romana, Marston criou um universo para sua personagem que remonta a esta cultura. Batizada de Diana, a personagem era uma amazona que vivia na Ilha Paraíso (também conhecida com Themyscira ou Temiscira), localizada no Triângulo das Bermudas.

A Mulher-Maravilha desenhada por H.G. Peter.

A Mulher-Maravilha fez sua estréia nos quadrinhos no dia 8 de dezembro de 1941, ganhando uma edição própria em 1942. Nessa época, os EUA estavam entrando na 2ª Guerra Mundial, o que levou os meios de comunicação americanos, sem exceção, a serem convocados para atuar em favor dos aliados e contra o nazismo. Assim, as histórias da heroína foram situadas no mesmo período.

Na Ilha Paraíso, as amazonas são seres imortais, nascidas de moldes de barro, vivendo por conta própria, sem a necessidade da presença do homem. Um dia, um acidente aéreo leva o piloto do avião, Major Steve Trevor, a ser socorrido por elas. Diana, filha da Rainha Hipólita, é a escolhida para levá-lo de volta aos EUA, onde deverá permanecer para ajudá-los a derrotar o nazismo.

Utilizando a bandeira americana encontrada no avião, as amazonas fabricam o uniforme da Mulher-Maravilha. Entre os acessórios, o laço da verdade (em referência ao detector de mentiras de Marston); braceletes feito de um material existente apenas na Ilha, capazes de repelir balas ou qualquer outro tipo de munição; e uma tiara, através da qual poderia se comunicar com a Ilha (a tiara também servia de bumerangue). Seu meio de transporte era um avião invisível, controlado pela mente.

Além dos nazistas, algumas vezes representados pela Baronesa Paula Von Guther, a Mulher-Maravilha também enfrentava super-vilões, como Cheeta, Mulher-Leopardo, Giganta e, é claro, Marte, o Deus da Guerra, que desejava destruir as amazonas, amantes da paz, para continuar a instigar os homens à guerra.

Após a morte de Marston em 1947, a personagem nos quadrinhos continuou vivendo suas aventuras, chegando à década de 1960, quando surgiu a Garota-Maravilha, Donna Troy, uma órfã salva pela heroína. Através de um raio, Diana lhe dá super-poderes, tornando-a sua auxiliar no combate ao mau. Nesse período também surgiu I-Ching, um chinês mestre das artes marciais que se torna amigo de Diana.

Na década de 1970, a personagem foi atacada por outro psicólogo, Frederic Wertham, que a acusava de ser lésbica. Para ele, qualquer mulher que defendesse o feminismo só poderia ser homossexual. Assim, a personagem reduziu seu discurso feminista e passou a idolatrar o Major Steve Trevor.

O próximo passo da personagem foi adentrar o mundo da televisão. A primeira tentativa ocorreu na década de 1960, quando um piloto de cinco minutos chegou a ser produzido pelos mesmos responsáveis por Batman. Seguindo a mesma linha cômica, o primeiro roteiro foi escrito por Stan Hart e Larry Siegel, da revista Mad, o qual foi reescrito por Stanley Ralph Ross, da série Batman.

Na história, Diana vivia nos EUA em um pequeno apartamento, junto com sua mãe, Hipólita, que estava decepcionada com a filha por ela ainda ser solteira e ficar perdendo tempo em salvar o mundo. Diana, por sua vez, era uma jovem sem graça, como um patinho feio, que se transformava na Mulher-Maravilha. Quando se olhava no espelho, se via linda e maravilhosa. A personagem era interpretada por Ellie Wood Wallas (na foto acima à esquerda) e seu reflexo no espelho era Linda Harrison (foto à direita), atriz que ficaria famosa com o filme O Planeta dos Macacos.

O enredo foi considerado medíocre e a série não chegou a ser produzida. A personagem teria uma nova chance na década de 1970. Depois de fazer sua estréia em séries animadas, como Superman-Aquaman Hour Adventure, de 1967, e Os Superamigos, de 1973, a Mulher-Maravilha foi escolhida para estrelar um telefilme. A idéia de Douglas S. Cramer, responsável pelo projeto, era a de trazer a personagem para o tempo presente, no qual ela seria uma aliada da CIA. O telefilme estreou em 1974, com a ex-tenista Cathy Lee Crosby no papel título.

Cathy Lee Crosby como a Mulher-Maravilha. (Foto: ABC/Arquivo)

Sendo loira, vestindo um uniforme diferente e sem superpoderes, a personagem não retratava o universo popularizado pelos quadrinhos. A produção foi atacada pela crítica e pelos fãs, levando os responsáveis a reformularem o projeto, tornando-o mais fiel ao original. Assim surgiu outro telefilme, com Lynda Carter no papel título. Inexperiente, a atriz, que tinha sido testada para o telefilme anterior, precisou enfrentar a resistência da rede ABC que queria Joanna Cassidy (240-Robert e A Sete Palmos) no papel principal.

Por curiosidade, entre as atrizes que fizeram testes para o projeto estão Suzanne Sommers (Step By Step), Rachel Welch, Lindsay Wagner (A Mulher Biônica), e aquelas que ficariam conhecidas como as panterinhas do Charlie: Kate Jackson, Farrah Fawcett, Cheryl Ladd e Jaclyn Smith. No papel do Major Steve Trevor, Cramer contratou Lyle Waggoner, que já tinha feito testes para estrelar a série Batman.

Na história, a personagem passou por algumas mudanças, em função de orçamento e desenvolvimento criativo. Para se transformar na Mulher-Maravilha, Diana dá uma espécie de pirueta, fazendo surgir um clarão. Nos quadrinhos, a mudança é feita em alta-velocidade. A personagem também adquiriu os poderes de mudar de voz e se comunicar com os animais. Para aprisioná-la, ao invés de unir seus braceletes, os bandidos teriam que retirá-los.

O telefilme foi um sucesso levando a ABC a produzir um outro, que mais tarde seria dividido em duas partes, apresentados como os dois primeiros episódios da série produzida entre 1975 e 1979 (já lançada em DVD no Brasil).

A série somente foi aprovada pela ABC quando as redes CBS e NBC demonstraram interesse em produzi-la. Após a primeira temporada, que retratou o universo criado nos quadrinhos, a série foi cancelada. Resgatada pela CBS, a segunda temporada foi produzida levando a personagem para o tempo presente.

Lynda Carter como a Mulher-Maravilha. (Foto: ABC/Arquivo)

Com o título de As Novas Aventuras da Mulher-Maravilha, a personagem foi transformada em uma espécie de As Panteras. Entre as mudanças, Steve Trevor teve uma participação reduzida, a Ilha Paraíso e o avião invisível foram dispensados, e a personagem abandona completamente a imagem tradicional de Diana Prince, identidade secreta da Mulher-Maravilha, que tinha o objetivo de passar despercebida das pessoas que a cercavam.

Vestindo-a como uma modelo de capa de revista e capaz de realizar diversas tarefas como agente secreto, a Diana da versão CBS é uma mulher exuberante, que vive na moda e raramente utiliza óculos (à la Clark Kent) para disfarçar. Ficava ainda mais difícil aceitar o fato de que ninguém percebia que Diana era a Mulher-Maravilha. Assim, sua transformação em heroína era praticamente desnecessária.

Para justificar a presença da heroína no tempo presente, a história apresenta um novo episódio piloto, no qual Diana está de volta à Ilha (uma das poucas, senão a única, referência na nova fase), onde salva a vida de Steve Trevor Jr, interpretado pelo mesmo ator. Assim, ela decide retornar aos EUA para ajudá-lo na caça a comunistas, terroristas e traidores. Cancelada em sua terceira temporada, a série não conseguiu explorar o universo e o potencial criado em torno da heroína.

Durante décadas, a versão dos anos de 1970 permaneceu como sendo a única produção com atores a retratar as aventuras da super-heroína. Até que, entre 1997 e 1998, a Warner Brothers desenvolveu um projeto de série criado por Deborah Joy Levine (As Novas Aventuras do Superman). O projeto não chegou a ganhar a encomenda de um episódio piloto. Em 2010, a Warner tentou de novo, desta vez conseguido que a rede NBC encomendasse um piloto para avaliação.

Adaptado por David E. Kelley (que se lançou com Ally McBeal) e estrelado por Adrianne Palicki (Friday Night Lights), o piloto foi rejeitado pelos fãs quando ‘vazou’ na Internet. Ele chegou a ser reformulado, incluindo uma troca de uniforme alternativo (a atriz também vestia o uniforme oficial da personagem, o qual pode ser visto no vídeo promocional do piloto), mas não foi capaz de gerar a produção de uma série.

Adrianne Palicki com a primeira versão do uniforme alternativo da Mulher-Maravilha para a NBC.

Mas o que de fato deu errado? Com certeza não foi o tema. A ideia de ter uma heroína na TV ia ao encontro do perfil das novas séries americanas, a maioria delas centrada no universo feminino. Na época, muitos acreditavam que o fracasso de produções como The Cape e No Ordinary Family, bem como a queda de audiência de Heroes, teria feito com que as séries estreladas por super-heróis perdessem lugar nas grandes redes. Para esses, o único canal que poderia exibi-los atualmente seria o CW, voltado para o público jovem, que apresentou ao longo de uma década a série Smallville.

Outros acreditavam que o problema da nova série seria o fato dela ser situada em um ambiente diferente daquele para o qual a heroína foi concebida. Mas devemos lembrar que essa abordagem já tinha sido feita anteriormente, tanto nos quadrinhos quanto na TV, e aceita pelo público.

Deixando o visual de lado e a ideia de colocá-la ou não em um ambiente contemporâneo, o que parece ter saído errado na versão da NBC foi o roteiro. Quem teve acesso ao episódio piloto não se entusiasmou. Na história, a heroína se divide em três personagens: Diana Prince, Diana Themyscira e a Mulher-Maravilha. O mundo sabe que Diana Themyscira, uma empresária bem sucedida, é a Mulher-Maravilha. Sua corporação explora a imagem da heroína vendendo bonecos e produtos diversos. O lucro da venda é utilizado na produção de veículos e outros artefatos para que ela, como heroína, possa combater o crime. Para ajudá-la, ela conta com o apoio de um grupo formado por jovens nerds conhecido como The Animals, que trabalha na área de novas tecnologias.

Mas nem todos estão a favor da Mulher-Maravilha, visto que Diana Themyscira é obrigada a comparecer no Senado para defender a constitucionalidade de seus atos como heroína (esse tipo de discurso não faltaria em um roteiro de Kelley, famoso por suas séries de tribunais).

Adrianne na versão final de seu uniforme alternativo de Mulher-Maravilha (Foto: NBC/Arquivo)

Já Diana Prince é uma jovem comum, conservadora, solitária, que vive em um apartamento de um quarto. Utilizando lentes de contatos que escondem a verdadeira cor de seus olhos, ela prende seus cabelos em coque e usa óculos. Assim, ninguém a identifica como sendo Diana Themyscira, a Mulher-Maravilha. Vivendo fora da Ilha Paraíso, Diana passa pelo processo normal de envelhecimento. Por isso, como Diana Prince, a personagem busca uma vida normal, algo que ela se arrepende de ter dispensando quando, há quatro anos ela, como Diana Themyscira, terminou seu relacionamento com Steve Trevor, o amor de sua vida, porque uma heroína não tem tempo para romances.

A grande inimiga da Mulher-Maravilha é Veronica Cale, executiva da Big Pharma, empresa farmacêutica que pretende criar super soldados para destruir a Mulher-Maravilha e conquistar o mundo.

Depois que este projeto foi engavetado, a Warner Brothers tentou produzir uma nova série com a personagem em 2011, desta vez com o canal CW, que há anos vem investindo em produções estreladas por super-heróis. Com o título de Amazon, o projeto não chegou a ganhar a encomenda de um piloto.

Criada por Allan Heinberg (Grey’s Anatomy, The O.C.), a história, segundo o enredo divulgado na época, apresenta a vida de uma guerreira que vem de um país longínquo. Responsável por liderar um pelotão em diversas batalhas de campo, ela tenta escapar da brutalidade que a cerca em seu país. Chegando nos EUA, ela se encanta, ao mesmo tempo em que fica horrorizada, com os diversos aspectos que cercam a rotina de vida das pessoas. Tentando aprender sobre a cultura e os costumes locais, a jovem inexperiente e ingênua é capaz de perceber quando alguém está mentindo. Uma guerreira com coração romântico, ela luta até a morte para defender aqueles que ama, buscando transformar o mundo em um lugar mais seguro.

Gal Gadot como a versão cinematográfica da Mulher-Maravilha. (Foto: Warner Brothers/Divulgação).

Somando duas tentativas frustradas de levar a personagem a estrelar uma nova série com atores, a DC passou a se dedicar à versão cinematográfica, que vinha sendo desenvolvida desde o final dos anos de 1990.

Em 2000, John Cohen chegou a ser contratado para escrever o roteiro, que seria produzido por Joel Silver. Em 2005, Joss Whedon (Buffy a Caça-Vampiros) teve seu nome ligado à produção, mas o roteiro acabou sendo assinado por Heinberg, criador da versão do CW, com base em uma história criada por ele em parceria com Zack SnyderJason Fuchs. A direção é de Patty Jenkins (The Killing, remake), que se tornou a primeira mulher a dirigir um filme estrelado por uma super-heroína.

Estrelado pela israelense Gal Gadot (ex-miss, ex-militar e atriz de séries em seu país), o filme lançado este ano apresenta Diana relembrando sua origem na ilha de Themyscira, onde se tornou uma guerreira amazona. Após resgatar o piloto americano Steve Trevor (Chris Pine, que além de ser o novo Trevor também é o novo Capitão Kirk), ela toma conhecimento sobre a 1ª Guerra Mundial. Acreditando que o Deus Ares é responsável por incentivar o conflito, ela decide deixar a ilha com o objetivo de localizá-lo e destruí-lo. Neste meio tempo, Diana auxilia Trevor na luta contra os alemães.

Estimado em 149 milhões de dólares, o filme já arrecadou até o momento 223 milhões (bilheteria mundial), tendo conquistado a crítica.

Vale registrar que a personagem continuou a aparecer em versão animada ao longo dos anos, em diversos programas e curtas.

______________

Este texto é uma junção de duas matérias publicadas em 2011 no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *